RETROCESSO SINDICAL (política partidária com dinheiro do imposto)
Zero Hora - Editorial [fonte: Zero Hora]
O apoio explícito de cinco das seis centrais sindicais do país à continuidade do atual governo não só acrescenta um fator de desequilíbrio à campanha eleitoral como também evidencia um desvirtuamento do sindicalismo no país. Sustentadas pelo imposto sindical descontado de todos os trabalhadores do país, filiados ou não às corporações de trabalhadores e às suas centrais, essas entidades não têm o direito de usar suas prerrogativas para fazer campanha política, nem de lançar mão do dinheiro pago pela sociedade para tomar partido. O fato em questão ocorreu no dia 1º de junho, quando as centrais sindicais reuniram-se em assembleia no Estádio do Pa- caembu com o objetivo de aprovar a Agenda da Classe Trabalhadora, mas que na realidade acabou se convertendo numa espécie de ato público de apoio à continuidade do atual governo e de rejeição a uma eventual vitória da oposição que seria um “retrocesso”. A organização do encontro custou R$ 800 mil e foi paga pelas centrais com recursos do imposto sindical.
De fato, o que houve em São Paulo foi um retrocesso. O amadurecimento das instituições nacionais, inclusive dos sindicatos, tem acompanhado o processo de avanço de toda a sociedade e da democracia. Houve uma tendência, que os cidadãos identificaram, de valorização dos mecanismos de representação, de comportamento republicano por parte dos governantes e de exigência de lisura nos embates eleitorais. Na contramão dessa tendência, têm surgido, infelizmente, episódios que impediram que a qualidade da democracia se aprimorasse ainda mais. As denúncias e evidências de uso de caixa 2 nas campanhas políticas, os escândalos dos vários mensalões, o uso da máquina pública em benefício de candidatos, a falta de compostura de governantes que esquecem de se comportar como representantes de toda a sociedade, tudo isso mostra a nossa carência de padrões democráticos amadurecidos. O caso das centrais sindicais que usam dinheiro da sociedade para posicionar-se na disputa partidário-eleitoral é outra das distorções marcadas pelo DNA da hipocrisia e do faz de conta.
O atrelamento das centrais sindicais a determinada candidatura ou a determinado governo, mesmo da forma disfarçada com que está ocorrendo, traz à lembrança do país o período em que se criou o termo peleguismo, para identificar a subserviência sindical ao Estado Novo. A renovação do sindicalismo ocorrida no final dos anos 70 e nos anos 80 do século passado parecia ter direcionado as agremiações de trabalhadores para uma fase de independência, cuja principal virtude era a de afastar-se das injunções dos governos e de seus interesses políticos. Infelizmente, está havendo agora uma recaída, uma espécie de volta ao passado, que prejudica a qualidade do sindicalismo, distorce sua função representativa, mascara sua tarefa reivindicatória e coloca o dinheiro da sociedade a serviço de partidos. Além disso, os sindicatos e suas centrais, ao se comportarem partidariamente, rompem o tácito pacto de pluralismo, que é da essência da própria democracia.
Está havendo uma recaída, uma espécie de volta ao passado, que prejudica a qualidade do sindicalismo e rompe o tácito pacto de pluralismo, essencial à democracia.