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Limites


Oscar Bessi Filho
[fonte: Correio do Povo RS]


Detestamos ouvir um não. Trauma da ditadura, talvez. Voltamos à democracia só pensando em liberar geral e afrontar os podres poderes. Estado ou família. Eis a questão. A regra era o escudo repressor? Então tá proibido proibir. E corremos às garantias. Precisávamos. Acontece que, justamente aí, nos perdemos. Faltou calma para pensar a mudança. A educação levou um chega-pra-lá e perdemos a noção de limites. Além de outras noções. Fomos afoitos. Queríamos passear, mas fechamos o carro com a chave dentro. Agora nos debatemos. Quebrar o vidro? Ou gritar pelo chaveiro?

Comandante do Exército assassinado, policial agredida covardemente e seguranças oficiais assaltados. Houve quem se perguntou, epa, o que está acontecendo? A falta de limites ignora até mesmo quem protege? A resposta veio rápida, e firme, com Polícia Civil e Brigada Militar prendendo assaltantes, traficantes, desbaratando quadrilhas e poderes paralelos. Mostrando que respeito ainda é bom. E necessário.

A confusão entre autoridade e autoritarismo foi a grande vilã nessa lacuna moral existente. Leis existem. O descrédito e o desdém nascem é do mau uso do poder. Vira cultura. Sei, é óbvio, mas é do óbvio que esquecemos. Em casa, mal temos coragem de impor regras. Alegamos, nossos pais, ou os pais de nossos pais, foram repressores. Nós não. Somos legais e diferentes. Só perdemos o controle. Só. Confundimos tudo. Respeito não é um chinelo 42 em riste, brutalidade ou censura. É ter limites naturais.

Certa feita, uma senhora lidava entre sacolas de compras e um menino birrento pela mão. Que queria sorvete. Ela tentava dizer não. Tentava. Ele insistia. Chorava, gritava, sapateava. Então a mãe me viu, fardado, e disparou: "Ó, te comporta, ou o policial vai te prender". Não podia ser pior. O menino expandiu o berreiro. Se os pais perdem a autoridade, nenhuma ameaça recupera. Nem velho do saco, bicho papão ou zagueiro argentino. Muito menos Polícia ou conselho tutelar. Aquela mãe, ao se impor assim ao menino, cria um adulto disposto a odiar e enfrentar a Polícia. Tá certo, minha aparência é, digamos, pitoresca. Mas policial não é para dar susto. É para proteger. Aproximar.

Superávamos tabus. Hoje, precisamos de resgates. Como da verdadeira autoridade. Sem pressão ou ameaça. No convencimento, no exemplo, na cidadania. Crescer sabendo que há o outro a ser respeitado e que fiscalizar a autoridade pública é cobrar, não afrontar. Difícil? É. Igual treinar o Zimbábue. Mas o pior é ter que se cuidar da própria sombra. Viver cada vez mais entre muros, grades e seguranças. E seguranças dos seguranças.



Oscar Bessi Filho é capitão da BM.



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