Bastou o fato de as pesquisas de opinião pública terem confirmado uma tendência à polarização na disputa presidencial, para que a fase de pré-campanha, antes mesmo de ter sido aberta a temporada legal de caça aos votos, descambasse para uma verdadeira guerra partidária. A questão, portanto, já não se resume mais a um jogo de faz de conta, no qual pré-candidatos aproveitam todos os espaços disponíveis – de suas próprias legendas e de agremiações aliadas – para falar sobre seus planos para o país, mesmo sem estarem oficialmente em campanha, o que só é permitido por lei depois das convenções partidárias. Desde a última semana, o problema passou a se concentrar em agressões e acusações, envolvendo até mesmo práticas torpes e que pareciam ultrapassadas, como a fabricação de um suposto dossiê, todas elas inadmissíveis na boa política.
De pessoas tão preparadas – como é o caso da ex-ministra Dilma Rousseff (PT) e do ex-governador José Serra (PSDB), ambos na liderança das pesquisas –, o eleitor tem motivos consistentes para esperar um debate mais à altura da importância das eleições de outubro para o futuro político do país. Uma contribuição nesse sentido seria possível apenas com base no que havia sido prometido inicialmente e no que as primeiras manifestações públicas dos pretendentes ao Planalto pareciam indicar. Isso significaria um debate objetivo sobre questões realmente pertinentes, como os projetos para manter a expansão econômica e a redução das desigualdades sociais, além da melhoria dos serviços prestados à sociedade de maneira geral, em áreas como saúde, educação, segurança e infraestrutura, entre outras de responsabilidade do poder público. O agravante é que algumas das acusações disseminadas hoje sequer têm uma consistência equivalente à polêmica provocada.
Se é que estão mesmo interessados em antecipar o debate, fazendo contorcionismos verbais para evitar sanções da Justiça, os pré-candidatos deveriam se ater a questões objetivas, em respeito ao eleitor. Episódios desastrosos, como o resultante nas últimas eleições presidenciais da tentativa de compra de um suposto dossiê antitucano por “aloprados” do PT, como foram definidos na época pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pareciam não ter mais chances nos dias de hoje. Ainda assim, o que o eleitor constata, neste momento, são denúncias de contratação de arapongas cujo objetivo seria espionar não apenas o adversário, mas também correligionários, além da montagem de dossiês e de sucessivas batalhas judiciais, como se a Justiça Eleitoral já não tivesse fatos efetivamente concretos e em grande quantidade para se ocupar.
Como a campanha eleitoral, oficialmente, sequer começou, ainda é tempo de os pré-candidatos refazerem suas estratégias. Um bom começo seria levar mais em conta não apenas os seus interesses imediatistas de se eleger de qualquer forma, mas também, e principalmente, os dos eleitores.