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Uma visão que não se limita aos olhos


Sagrado Lamir David
[fonte: O Globo]


Publicada em 18/06/2010 às 19h09m Artigo do leitor



O filme Blindness ("Ensaio sobre a cegueira"), do excelente cineasta Fernando Meirelles, baseado no livro de Saramago, inspirou-me, não como crítico literário ou cinematográfico, mas como espectador da vida, graças aos olhos espirituais e humanistas que Deus me deu, a escrever esse artigo. Será que aqueles que não veem com os olhos, aos quais chamamos impropriamente de "cegos", são realmente cegos?

Até onde nós, que "vemos", podemos achá-los coitados, perante tanta ignomínia que presenciamos com nossos olhos, e nada fazemos para impedir ou punir? Até onde esses "pobres" cegos dos olhos são beneficiados por não verem tanta tragédia produzida pelos felizes mortais que têm olhos para ver? Ou para não ver?

Parece até que todo cego dos olhos aparenta uma certa tranqüilidade de - por não ver - não poder ser responsabilizado por friezas e maldades que acontecem no trepidante mundo de luzes dos "abençoados" com a visão normal. Não veem, mas pressentem. Não olham, mas sentem. Vivem nas sombras do mundo exterior, mas têm a iluminá-los a chama interior do espírito e da fé. Não são dignos de pena. Ao contrário, são merecedores de respeito e de admiração.

Mas há, de fato, solidariedade?

Nesse mundo cada vez mais individualista e perverso há alguém que se preocupe com o outro, a não ser por interesses próprios?

Saramago nos lembra belamente em seu livro "Ensaio sobre a Cegueira" a "responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam".

Jamais, tenho certeza, passou pela mente do grande escritor português qualquer mínima referência aos cegos dos olhos, mas aos cegos de coração e de espírito. Continue nos olhando aí de cima, grande alma de Saramago, pois o mundo necessita desse olhar que vê além dos olhos.



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