José Roberto Medeiros do Nascimento [fonte: O Globo]
30/06/2010 às 14h11m; Artigo do leitor
É tempo de Copa do Mundo. O Brasil se pinta de verde e amarelo, as bandeiras são expostas nas varandas, as ruas são enfeitadas, o coro de "eu sou brasileiro, com muito orgulho e com muito amor" invade as ruas e uma onda de patriotismo toma conta da população. Mas até onde esse patriotismo deve ser levado a sério? Onde está esse patriotismo durante as eleições? Onde está o sentimento e o orgulho nacional no dia a dia?
O que acontece é que o sentimento de "ser brasileiro" ainda é muito fraco e uma das únicas coisas capazes de evocá-lo é o esporte, o que é um grande problema. O nosso processo de independência foi pacífico, ao contrário de outros países e, por questões de comunicação, várias partes do Brasil mal souberam de tal "libertação". Aliás, se formos falar de liberdade, o que se conquistou com a independência? Economicamente, continuamos dependentes de grandes potências. O escravo não se viu livre com o Brasil independente, muito pelo contrário, o modelo escravocrata continuou sendo a base econômica do Império nascente.
O nosso Hino da Independência, escrito por Evaristo da Veiga, tenta construir a imagem de luta e liberdade em inúmeros de seus versos, como por exemplo, em "brava gente, brasileira, longe vá... temor servil: ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil", ou ainda, em "os grilhões que nos forjava, da perfídia astuto ardil... houve mão mais poderosa, zombou deles o Brasil".
Uma pessoa que não tenha estudado a história de nosso país pode imaginar, por conta desses versos, que foi com sangue e suor que conquistamos a nossa independência. Só que ocorreu justamente o contrário: os grilhões que Portugal nos forjava, com a independência, passaram a ser forjados pela Inglaterra e, longe de uma batalha, conquistamos nossa independência por meio da diplomacia e, com tal, não forjamos uma unidade nacional entre os nossos. A unidade existente no Brasil é regionalizada: o carioca, o paulista, os gaúchos, os nordestinos e por aí vai. A liberdade exposta no mesmo hino, é ilusória, uma vez que, mesmo se dizendo que "já raiou a liberdade no horizonte do Brasil", os negros continuaram escravizados, vindo a conquistar sua liberdade apenas 66 anos depois da declaração de independência.
É evidente que, de lá para cá, muito mudou em nosso país. A comunicação melhorou, uma política de integração nacional, ainda que deficiente, foi construída, mas mesmo assim é difícil formar uma identidade nacional para além do esporte. É difícil e também não interessa. Interessa às oligarquias locais um processo de integração? Nós vivemos em um país, onde no eixo Sul-Sudeste pouco se sabe sobre o que acontece por dentro dos estados do eixo Norte-Nordeste. Vivemos em um país onde um gaúcho dificilmente irá se identificar quando se deparar com as raízes da cultura nortista. No fim, acabamos tendo que concordar com Renato Russo que, em sua música "Perfeição", alerta para o fato de que somos um "estado que não é nação".
O "ser brasileiro" ainda é muito vago. A unidade nacional ainda não é um fato totalmente consumado. Temos fronteiras firmes, temos uma unidade territorial, mas política e culturalmente ainda somos dispersos. O projeto de integração nacional tem que ser feito com seriedade e competência para que nosso patriotismo não se limite a períodos de Copa do Mundo. O Brasil tem um enorme potencial, mas para gozar da plenitude deste potencial precisa de mais empenho político e da consolidação da sua nacionalidade.
Enfim, em tempos de Copa do Mundo é bom que reflitamos acerca de até onde esse patriotismo é real ou ilusório, até porque, mesmo com a bola rolando, a nossa política não para. Estamos em um ano eleitoral e, infelizmente, a tendência é que não vejamos esse patriotismo todo na hora de se pensar e analisar as candidaturas apresentadas.
COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Estas duas frases extraídas e destacadas pelo O Globo expressam a qualidade do artigo e boa para refletir:
"A unidade existente no Brasil é regionalizada: o carioca, o paulista, os gaúchos, os nordestinos e por aí vai. A liberdade exposta no mesmo hino (da Independência), é ilusória."
"Temos fronteiras firmes, temos uma unidade territorial, mas política e culturalmente ainda somos dispersos. O projeto de integração nacional tem que ser sério, para que nosso patriotismo não se limite à Copa"