O alcance da bala que matou uma criança na sala de aula
Pedro Porfírio [fonte: Porfírio Livre]
O alcance da bala que matou uma criança na sala de aula. O responsável pela ação policial desastrada no entorno de uma escola é o governador - não o coronel
"Não teria sido um erro construir escola perto de favela?" Leilane Neubarth, da Globo News, ao entrevistar um especialista em violência no jornal Em cima da Hora das 18h do dia 16.7.2010.
Estão em êxtase frenético os patrocinadores da matança de jovens nas favelas e conjuntos habitacionais da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, criminalizados como "santuários do crime e da violência urbana".
Nesta sexta-feira, 16 de julho de 2010, a polícia, excitada pelo governador Sérgio Cabral Filho, matou dois coelhos de uma só cajadada, em uma enraivecida operação de guerra no bairro de Costa Barros: Wesley Gilber Rodrigues de Andrade, um garoto de 11 anos, foi atingido mortalmente por uma bala "perdida" e em plena aula num CIEP, a escola emblemática concebida por Brizola e Darcy Ribeiro.
Ao comentar a notícia no site do GLOBO, o leitor Sérgio Barros escreveu em letras maiúsculas, às 20h06m do dia 16: "TEM QUE INVADIR FAVELAS MESMO. QUEM MORA EM FAVELA É BANDIDO". Esse não é o sentimento isolado de um debilóide - infelizmente, muitos pensam exatamente como ele.
O menino, que caiu com um lápis na mão durante a aula de matemática, foi um dos sete mortos, todos moradores do Morro da Pedreira: no confronto, nenhum policial saiu sequer arranhado.
Política oficial de extermínio
É mais um capítulo na mais brutal utilização de uma máquina de extermínio oficial na matança de jovens e adolescentes moradores nas áreas pobres e estigmatizadas do Estado: em 9 de novembro de 2009, o jornal ESTADO DE SÃO PAULO revelava: o número de mortos em autos de resistência, desde que esse tipo de morte começou a ser registrada oficialmente, passou de 10 mil no Estado do Rio de Janeiro. Dados da Secretaria de Segurança Pública indicam que, de janeiro de 1998 a setembro de 2009, policiais civis e militares mataram 10.216 pessoas acusadas de envolvimento em confrontos, média de 2,4 mortos por dia.
O episódio da sexta-feira fala por si. A polícia militar transformou o entorno de uma escola pública numa praça de guerra, ato tão infeliz que levou à demissão do comandante do 9º Batalhão, feito bode expiatório da tragédia anunciada.
Escolas questionadas pela localização
Crianças são as maiores vítimas das operações policiais realizadas em horas e locais em que deliberadamente inocentes viram alvos. E isso não acontece por acaso. Essas crianças, por coincidência, são das comunidades pobres, onde, para muitos, quem não é bandido faz o seu jogo.
Tão grave como a matança promovida pelos policiais do gosto do governador está sendo a reação de certos formadores de opinião. Ao comentar a morte do garoto no CIEP, a apresentadora Leilane Neubarth, da Globo News, questionou a existência de escolas perto de favelas. O problema seria esse, em sua opinião, levada a milhares de telespectadores.
Outro menino Wesley foi morto no Jacarezinho
Lembrei-me do que escrevi em 18 de janeiro de 2008, ao comentar a morte de outro Wesley, este, de 3 anos, do Jacarezinho:
A tarde já se ia quando três tiros de fuzil alvejaram mortalmente o menino Wesley Damião da Silva Saturnino de Brito, de apenas três anos de idade. Foram três "balas perdidas", que atingiram o tórax, o ombro e no braço esquerdo.
O menino mulato de semblante risonho morreu em frente à casa de sua avó, na Rua Esperança, um dos acessos ao Jacarezinho que dá na Rua Pinto de Azevedo, já no bairro do Jacaré. Ele voltava para casa com a mãe de 23 anos, que trazia o caçula de 6 meses no colo e Wesley pela mão.
No dia seguinte, a notícia saiu nos jornais, mas depois não se falou mais nisso. As pessoas que fizeram grandes mobilizações quando da morte de um menino carregado por bandidos em fuga, presos a um cinto de segurança, não disseram nada. Nem os jornais, nem ninguém emprestou à morte do pequeno Wesley do Jacarezinho nenhum sentimento de indignação.
Afinal, Wesley Damião da Silva Saturnino de Brito é mais um menino da favela que, como já comentou um dia o governador Sérgio Cabral, poderia ser amanhã mais um traficante, de onde o caráter "profilático" de sua morte e a indiferença generalizada de uma sociedade hipócrita, para a qual três balas de fuzil disparadas contra uma criança de favela não lhe causa qualquer comoção".
O apartheid e a sensação de segurança
O episódio de agora tem que ser encarado como reflexo de uma política de segurança inspirada no apartheid. Sérgio Cabral Filho mostra-se, mais uma vez, o oposto de Brizola, cuja percepção remetia para o investimento maciço na educação. Esse CIEP já fora desfigurado quando aboliram o ensino de tempo integral, o único meio de preparar os jovens para uma Universidade pública sem precisar da janela indecente das cotas.
A grande mídia tem uma boa parcela de responsabilidade nesses massacres. Ela vende aos cidadãos da classe média a idéia de que o caos social é problema da polícia. E que a violência será resolvida com a militarização de algumas favelas da Zona Sul e da Tijuca, através das chamadas UPPs.
Nesse caso, vendem a "sensação de segurança" e a "seletividade da violência" como achados dignos de todo apoio. Não dizem que as ocupações policiais são, de fato, reles encenações, sustentadas por um "acordo" tácito com os traficantes: estes continuam seu comércio - nenhum deles foi preso nessas ações - mas passam agir com discrição, sem a exibição de armas e sem confrontos.
O caso desse garoto sairá rápido da mídia, mais atenta à novela que envolve o goleiro do time mais querido do Brasil. Hoje mesmo, o crime não aparecia na primeira página do site do EXTRA, o jornal de maior circulação no Rio de Janeiro. Sua manchete era reservada ao anúncio de que o goleiro Bruno será demitido por "justa causa" pelo Flamengo.
Isto quer dizer: punição para os matadores do menino? Nem pensar. Não haverá ninguém para cobrar uma investigação séria, que, para variar, será atributo exclusivo da própria polícia, fato que é apontado pela Human Rights Watch como certeza da impunidade.
Aliás, em relatório divulgado no dia 8 de dezembro de 2009, essa organização mostrou a essência da política de segurança de Sérgio Cabral ao comparar os números: Segundo o relatório, em 2008 a polícia do Rio prendeu 23 pessoas para cada morte em "autos de resistência". Em São Paulo, foram 348 prisões para cada morte. Nos Estados Unidos, essa média é de 37 mil prisões para cada caso de resistência seguida de morte.
Ainda em 2008, a polícia do Rio matou 1.137 pessoas; a de São Paulo, 397; enquanto a polícia norte-americana matou, em um ano, 371 pessoas.
A matança vista por representante da ONU
Opinião parecida consta do relatório do comissário especial da ONU sobre Execuções Arbitrárias, Sumárias ou Extra-Judiciais, Philip Alston, que esteve por aqui de 4 a 14 de novembro de 2007, motivado pela chacina do Morro do Alemão, ocorrida em junho daquele ano, na qual 19 pessoas foram mortas durante uma mega-operação que mobilizou 1.350 policiais. Em seu documento, ele escreveu:
"Na maioria dos casos, assassinatos cometidos por policiais em serviço são registrados como "atos de resistência" ou casos de "resistência seguida de morte". Em 2007, no Rio de Janeiro, a polícia registrou 1.330 mortes por atos de resistência. Isto corresponde a 18 % do total de assassinatos no Rio de Janeiro. Em tese, essas são casos em que a policia teve de usar a força necessária e proporcional à resistência daquele que os agentes da lei desconfiavam ser criminosos. Na prática, o quadro é radicalmente diferente. É o próprio policial quem primeiramente define se ocorreu uma execução extrajudicial ou uma morte legal. Apenas raramente, essas auto-classificações são investigadas com seriedade pela polícia civil. Recebi muitas alegações altamente críveis de que as mortes especificadas como "resistência" eram, de fato, execuções extra-judiciais. Essas alegações são reforçadas pelo estudo de autópsias e pelo fato de que a proporção entre civis e policiais mortos é inacreditavelmente alta".
Finalmente, cabe alertar: a morte do aluno Wesley em plena sala de aula não é a primeira e nem será a última. A polícia não age assim por acaso. Por trás de suas truculências há um governador convencido de que é melhor "cortar o mal pela raiz". E ele não está sozinho. Que o diga a aliança montada para garantir sua reeleição.