Graças acima de tudo à estabilidade e à ênfase em programas sociais continuados, o Brasil conseguiu assegurar uma redução consistente nos níveis de desigualdade social nos últimos anos, fenômeno que não chegou a ocorrer nem mesmo durante o período lembrado hoje como do “milagre econômico”. Ainda assim, persiste um elevado grau de iniquidade, incompatível com os níveis de expansão econômica registrados pelo país, o que o coloca numa situação desconfortável e exige mais celeridade na aplicação de providências voltadas para melhoria da renda da população em geral. Por isso, a coincidência do ano eleitoral com o processo de expansão econômica continuada precisa ser aproveitada para um debate aprofundado sobre o que pode ser feito para apressar a redução das diferenças, no menor prazo de tempo possível.
Dois estudos recentes, divulgados agora, reafirmam o fato de o país ter conseguido reduzir o abismo de ganhos entre ricos e pobres, sem no entanto avançar como deveria. O mais recente deles é o primeiro relatório sobre desenvolvimento humano para América Latina e Caribe sobre distribuição de renda, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O levantamento demonstra que, mesmo tendo reduzido a concentração de renda nos últimos anos, o Brasil ainda ocupa uma posição desfavorável entre os países analisados. Confirma assim as constatações feitas a partir da comparação entre os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2008/2009, comparada com a de 2002/2003. Nesse período, nada menos de 25,9 milhões de brasileiros ascenderam para a classe C, o que contribuiu para reduzir as diferenças, mas não eliminou os graves problemas sociais do país.
Tanto em âmbito nacional quanto internacional, levantamentos como esses são importantes por demonstrarem a real situação socioeconômica do país e facilitarem a busca de soluções. Uma das principais razões das deformações sociais no Brasil é a baixa escolaridade, uma barreira que só poderá ser removida com políticas eficazes na área de ensino. O país precisa se comprometer definitivamente em resolver esta e outras questões se quiser se transformar não apenas numa economia próspera, mas também menos desigual. A educação de qualidade é a principal delas, mas também merecem atenção especial questões como a baixa renda, uma estrutura tributária injusta, a falta de acesso a serviços básicos e de infraestrutura.
Num ano de campanha eleitoral, é importante que os eleitores cobrem dos candidatos um posicionamento mais firme sobre suas pretensões em relação a aspectos dos quais o país depende para manter sua economia em expansão. Um ataque bem-sucedido a essas questões constitui-se num pressuposto para que o crescimento possa beneficiar de forma mais equânime o conjunto da população.