A MÁFIA - Traficantes acima da lei são patrões em Porto Alegre
Fonte: Zero Hora
PATRÕES DA CAPITAL. Traficantes acima da lei. Separados por dois quilômetros, líderes foragidos de duas quadrilhas desafiam a polícia e dominam a venda de drogas - HUMBERTO TREZZI
Na abafada madrugada de 26 de janeiro, um grupo de policiais militares foi recebido à bala ao intervir numa guerra de traficantes na antiga Vila Cachorro Sentado (atual Loteamento São Pedro), no bairro Partenon. Na liderança de um dos bandos em conflito estaria, segundo testemunhas, um dos homens mais procurados do Rio Grande do Sul, o traficante Juraci Oliveira da Silva, o Jura, 35 anos.
O mais curioso é que investigações das polícias Civil e Militar apontavam como possível paradeiro de Jura, naquele dia, o Paraguai, de onde ele manda centenas de quilos de maconha e cocaína a Porto Alegre.
Onde está Jura? Uma coisa é certa: não está no lugar determinado pela Justiça, a prisão, já que foi condenado por tráfico e homicídio.
Um mês antes desse episódio, na noite de 24 de dezembro, um vizinho de Jura no mapa e na geopolítica do tráfico em Porto Alegre também foi notícia. O foragido Paulo Ricardo Santos da Silva, o Paulão, 50 anos, foi visto em meio à sua comunidade, a Vila Maria da Conceição (também no bairro Partenon), distribuindo presentes de Natal a crianças pobres. Alegre, provou cerveja num bar, deu abraços em conhecidos e sumiu. Horas depois, 40 PMs tentaram localizá-lo, mas só prenderam alguns soldados do tráfico.
O curioso é que investigações policiais indicam que Paulão poderia estar em diversos lugares naquele momento: em São Paulo, onde mantém relações com a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), ou no Rio de Janeiro, onde frequenta pagodes no Morro da Mangueira, controlado pela mais poderosa facção criminosa carioca, o Comando Vermelho (CV).
Onde está Paulão? Uma coisa é certa: não está no lugar determinado pela Justiça, a prisão, procurado que é por homicídio e tráfico.
Empresas familiares dedicadas ao crime
Paulão – que justifica o apelido pelo porte de 1m87cm – e Jura não são amigos.
– Já estiveram em guerra, hoje se aturam – comenta um morador que conhece o submundo do Partenon e conviveu com ambos os bandos de traficantes.
Os dois são os mais bem armados e os que mais movimentam dinheiro na capital gaúcha, segundo levantamento de uma força-tarefa do Ministério Público e da Brigada Militar que confiscou bens de todas as quadrilhas. A estimativa é de que, juntos, esses bandos movimentem até R$ 100 mil diários em venda de drogas.
Nas bocas de fumo espalhadas entre as ruas Paulino Azurenha, Mário de Artagão e Barão do Amazonas, controladas por Paulão, é possível constatar a venda de 10 buchas de cocaína a cada três minutos. Movimento semelhante acontece nos arredores da Paineira, no Campo da Tuca, domínio de Jura.
É por isso que, separados por dois quilômetros, os dois bandos se espraiaram por outras áreas de Porto Alegre. Paulão tem influência nas vilas Cruzeiro e no bairro Restinga. Jura atua no Morro da Cruz e na Vila Bom Jesus. Não há notícia de que esses dois patrões do crime se envolvam em assaltos. O negócio deles é mesmo o tráfico – o que inclui assassinato de rivais e devedores.
Os dois montaram, segundo o MP, empresas familiares dedicadas ao tráfico. Os irmãos de Juraci foram presos pelo crime. O enteado de Paulão e atual desafeto está preso, pelo mesmo motivo. O entrosamento com a comunidade é chave para explicar porque ambos continuam gerenciando as bocas de fumo, mesmo foragidos. Jura teria o hábito de repassar dinheiro para familiares de antigos traficantes assassinados ou que caíram em desgraça.
Uma outra hipótese para a longa permanência dos chefes das drogas fora da cadeia são as conexões nacionais. Paulão, segundo promotores públicos, associou-se ao PCC quando conviveu, na mesma ala da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), com uma quadrilha de assaltantes ligada à organização criminosa paulista. Foragido, teria ido a São Paulo para um encontro com a cúpula da maior facção do crime no Brasil. Teria sido designado representante da facção em Porto Alegre. Também teria firmado relações com o Comando Vermelho (CV) carioca. Isso porque conviveu, também na Pasc, com Nei Machado, traficante gaúcho que foi preso na Colômbia com Fernandinho Beira-Mar, o líder máximo do grupo.
Jura também é próximo ao CV. Ele mantém relações no Paraguai com o foragido gaúcho José Paulo Vieira de Melo, o Paulo Seco, fornecedor de drogas para o CV. O líder do Campo da Tuca já foi monitorado em território paraguaio, mas escapou.
Jura já ofereceu reforma em prisão
A transformação de varejista em atacadista de drogas explica porque ele se ofereceu para reformar todo o prédio da Casa do Albergado Padre Pio Buck, em Porto Alegre. É o que contam funcionários da unidade prisional, que abriga apenados dos regime aberto e semiaberto. Antes, mandou um olheiro fotografar e filmar a decadente situação da prisão.
– Isso aqui está dentro da minha jurisdição, posso dar um jeito – anunciou, sem meias palavras, ao começar a cumprir pena no Pio Buck.
A oferta, claro, foi recusada pelos agentes do presídio, com um cortês “muito obrigado”. Jura nem teve tempo de tentar repetir a oferta. Fugiu um mês após sua chegada.
Uma das acusações que pesa contra Jura é ter mandado assassinar um antigo colaborador no tráfico, Cássio Michel Silva da Silva, em Porto Alegre. O jovem de 21 anos teve um dedo da mão arrancado e uma orelha, antes de ser morto com quatro tiros. O seu corpo, reconhecido por familiares, foi encontrado em 13 de dezembro de 2001 na Ilha das Flores, enrolado em lona e amarrado a um macaco hidráulico. Uma demorada investigação da 4ª Delegacia de Polícia Civil, baseada em diversos depoimentos, concluiu que Jura tinha ordenado o assassinato como vingança por Cássio ter matado um membro da quadrilha.
Jura chegou a ser condenado pelo crime, em novembro de 2003. Mas, em agosto de 2006, seu advogado alegou que o corpo enrolado na lona e encontrado na Ilha das Flores não era de Cássio. Portanto, não existiria crime. A prova seria um exame de DNA no cadáver, que não confirmou ser o corpo de Cássio. Além disso, policiais da 16ª DP disseram ter recebido informações sobre tráfico praticado por Cássio.
Com esses dois fatos novos, a condenação de Jura foi anulada mediante um recurso judicial. Mas nova investigação da polícia concluiu que o cadáver era mesmo de Cássio e que o exame que atestaria que ele estava vivo teria sido forjado. Dois policiais e um advogado foram denunciados pelo Ministério Público por fraude processual – no caso, dizer que o morto não estava morto – e aguardam julgamento, na 8ª Vara Criminal. Jura continua respondendo pelo homicídio.
Paulão patrocina samba e pagode
Mafioso à moda antiga, Paulão patrocina, por baixo dos panos, rodas de samba e a vinda de famosos pagodeiros cariocas para se exibirem na paupérrima Vila Maria da Conceição. Sucesso garantido na comunidade, agradecimento eterno ao patrão das drogas.
Mas que ninguém tome os dois traficantes por ingênuos. Paulão e Jura são desconfiados e andam sempre armados. Em uma ocasião, Paulão foi surpreendido por PMs portando duas pistolas calibre 9 mm (de uso restrito das polícias e Forças Armadas). No arsenal do bando de Jura, por outro lado, policiais encontraram balas de metralhadora antiaérea calibre .50. A suspeita é de que aluguem armas para assaltantes.
Moradores contrários à presença de traficantes nas comunidades suspeitam de que há má vontade de policiais em prender os dois chefes da droga. Talvez a explicação mais correta seja que a complexa rede de favorecimentos e obrigações montadas pelos dois patrões junto às comunidades onde atuam desde a adolescência dificulta sua prisão.
De qualquer forma, há promessa de ação. Por parte do Ministério Público e também do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), cujo diretor, delegado João Bancolini, avisa: – A batata desses dois está assando.
Zero Hora telefonou para os defensores dos dois foragidos, mas não conseguiu contato com Antônio Nascimento (advogado de Paulão) e com Ana Walter (advogada de Jura).
ZONA DE ATUAÇÃO
QUADRILHA DO PAULÃO - Estimativa da BM e do MP aponta que Paulão movimenta até R$ 50 mil diários em mais de 50 pontos de venda de drogas no bairro Partenon e na vila Cruzeiro. A última operação contra ele identificou quatro imóveis de luxo pertencente à quadrilha e apreendeu 30 veículos. A quadrilha teria movimentado R$ 994 mil em três meses, conforme documentos analisados por peritos do MP. A força-tarefa também concluiu que Paulão mantém relações com o PCC paulista e o CV carioca, as duas maiores facções criminosas organizadas do país.
BANDO DO JURA - De acordo com investigações de uma força-tarefa da Brigada Militar e da Promotoria de Justiça Especializada Criminal, Jura domina 50 pontos de venda de droga nos bairros Partenon e São José (incluindo o Campo da Tuca e o Morro da Cruz) e também 11 pontos no bairro Bom Jesus, na Zona Leste. Seus comandados lidam com cerca de 30 carros, uma dezena de motos, mais de 200 telefones celulares e dezenas de pistolas e revólveres. Conforme promotores e policiais, Jura compra no Paraguai droga por atacado e a redistribui em pelo menos cinco vilas de Porto Alegre.
O dono da Maria da Conceição
Natural de Porto Alegre, Paulo Ricardo Santos da Silva, o Paulão, 50 anos, responde a processos por tráfico desde 1982 e foi detido algumas vezes com drogas. Mas não foi condenado por tráfico, e sim por homicídio de um rival, em 1988 – pena que já cumpriu.
Fugiu de colônia penal agrícola, em 1995. No mesmo ano ele foi acusado de tentativa de roubo contra o dono de uma residência, na Vila Maria da Conceição. Entre 1995 e 1997, foi preso três vezes por porte ilegal de pistolas.
Em 1998, tentou matar Carlos Alberto Silveira Drey, o Beto Louco, seu enteado, com o qual disputava pontos de drogas. Em 2003, foi acusado de ameaçar cortar o rosto de uma médica de um posto de saúde da vila que se recusou a receitar um remédio de uso controlado para a sua mulher.
As principais acusações que pesam contra Paulão são por homicídios. Em 1998, foi denunciado pela morte de José Antônio Rodrigues Braga, o Corujinha. Em 2006, pelo assassinato de Gilberto da Silva Guedes, em Venâncio Aires (na saída de um presídio). Em 2008, foi preso preventivamente pela morte de Adão Jorge da Rosa Pacheco, o Adão Zoiudo, ocorrida no Presídio Central de Porto Alegre.
Todos esses homicídios teriam sido ordenados por Paulão em razão de desavenças com rivais do tráfico. Alegando problemas cardíacos, Paulão cumpriu a prisão preventiva em regime domiciliar.
De dentro da residência, teria ordenado mortes numa disputa com Beto Louco, que tentava tomar seus pontos de drogas. Foi a última guerra do tráfico vivida na Vila Maria da Conceição. Paulão abandonou a casa em 2008, um sobrado na vila, e desde então está foragido.
O chefe do Campo da Tuca
Natural de Fontoura Xavier, Juraci Oliveira da Silva, o Jura, 35 anos, está condenado até 2027 por tráfico e homicídio. Começou a frequentar delegacias da Polícia Civil em 1998, com uma prisão por conduzir um Kadett a 95 km/h, dentro do Campo da Tuca. Depois, os indiciamentos foram se complicando.
Em 1999, foi preso por espancar a coronhadas um jovem com quem discutiu. Em 2001, participou de um tiroteio e, no mesmo ano, acabou indiciado pelo assassinato de um rapaz. Depois, foi indiciado por outra morte, de um adversário no tráfico que foi torturado antes de ser executado. O executado, Cássio Michel Silva da Silva, teve uma orelha e um dedo amputados.
Em 2003, Jura foi preso em flagrante numa caminhonete, vindo de Ponta Porã (MS), na fronteira com o Paraguai. Era procurado por dois homicídios. Estava acompanhado, na ocasião, da companheira de um dos traficantes mais procurados no Brasil, José Paulo Vieira de Melo, o Paulo Seco, gaúcho ligado ao Comando Vermelho carioca.
Em 2005, Jura foi indiciado por tráfico de drogas e, no mesmo ano, por esconder em caixas da água da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc) explosivos, cordel, toucas ninja e uma corda (jiboia) que seria usada em fuga.
Transferido para o albergue prisional Pio Buck em 31 de março de 2009, ficou apenas 24 dias e fugiu, em 23 de abril. A Polícia Civil concluiu que, mesmo foragido, ele intermediou o assassinato do médico Marco Antônio Becker, como favor prestado a outro médico do qual é cliente, Bayard Fischer dos Santos.
COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - AS MÁFIAS SÓ ENFRAQUECEM DIANTE DE UMA JUSTIÇA ÁGIL, FORTE, DILIGENTE E COATIVA. ENQUANTO PERSISTIREM A ACOMODAÇÃO, AS BENEVOLÊNCIAS E A TOLERÂNCIA DA JUSTIÇA PARA COM O CRIME, O CIDADÃO CONTINUARÁ SEM PAZ, SEM JUSTIÇA E SEM LIBERDADE.