JUSTICEIROS - Justiça julgará PMs matadores acusados de pertencer aos "Os Highlanders". Caso de 2008
Fonte: Folha Online
PMs acusados de integrar grupo de extermínio "Os Highlanders" serão julgados amanhã - ANDRÉ CARAMANTE DE SÃO PAULO, Folha Online, 28/07/2010
Quatro policiais militares acusados pela Promotoria e Polícia Civil de São Paulo de integrar o grupo de extermínio "Os Highlanders" começarão a ser julgados às 9h30 de quinta-feira (29), no fórum de Itapecerica da Serra (Grande São Paulo).
O 3º sargento Moisés Alves Santos, o cabo Joaquim Aleixo Neto e os soldados Anderson dos Santos Sales e Rodolfo da Silva Vieira são réus no processo pela decapitação do deficiente mental Antonio Carlos Silva Alves, 31.
Desde o primeiro dia em que passaram a ser investigados pela Polícia Civil e Corregedoria da PM como responsáveis pelo crime, os quatro PMs sempre negaram participação no crime. Eles também negaram à Justiça a autoria do crime contra Alves.
Conhecido como Carlinhos, Alves foi sequestrado em 8 de outubro de 2008, no Jardim Capela, um dos bairros que formam o Jardim Ângela (zona sul de São Paulo).
Seu corpo, sem a cabeça e mãos, foi achado em uma área conhecida como local de desova de cadáveres de Itapecerica da Serra.
A existência do grupo de extermínio "Os Highlanders" foi revelada com exclusividade pela Folha em 23 de outubro de 2008.
De acordo com a investigação dos policiais civis da Delegacia Seccional de Taboão da Serra (Grande São Paulo), Alves foi sequestrado e levado no carro da PM de número 37104, onde estavam os quatro PMs acusados pelo crime.
Os PMs estão presos desde janeiro de 2009 no Presídio Militar Romão Gomes, no Jardim Tremembé (zona norte de São Paulo). Todos eram integrantes da Força Tática, espécie de grupo especial do 37º Batalhão, na zona sul.
Segundo a Polícia Civil e a Promotoria, o soldado Rodolfo Vieira era tido como chefe do grupo de extermínio, suspeito de 12 mortes em 2008 --cinco das vítimas foram decapitadas e, por isso, o grupo é chamado de "Os Highlanders".
O soldado Vieira também nega a existência desse grupo. De acordo com PMs do 37º Batalhão, Vieira era ligado ao coronel Eduardo José Félix, ex-comandante da Tropa de Choque da PM de São Paulo, e dizia contar com a proteção do oficial para não ser punido.
O coronel Félix nunca falou abertamente sobre o caso. Desde quando o nome do soldado Vieira foi vinculado ao seu, o oficial, por meio do Setor de Comunicação Social da PM, sempre negou qualquer tipo de proteção.
O soldado Vieira é filho do capitão da PM Paulo Roberto da Silva Vieira, que, durante vários anos, esteve lotado no extinto Tacrim (Tribunal de Alçada Criminal), e era amigo do coronel Félix.
NOVE PMs PRESOS
Ao todo, nove PMs (incluindo os quatro réus pela morte de Alves) estão presos acusados de integrar o grupo "Os Highlanders". Doze mortes --cinco das quais as vítimas tiveram as cabeças arrancadas-- são atribuídas pela Polícia Civil aos PMs "highlanders". Outros seis PMs e um comerciante do Capão Redondo (zona sul de São Paulo) também são suspeitos de ajudar nas mortes atribuídas aos nove policiais presos. Esses outros sete suspeitos estão soltos atualmente. Interrogado pela Polícia Civil, Corregedoria da PM e na Justiça, o soldado Vieira confessou participação no sequestro de Roberth Sandro Campos Gomes, 19, o Maranhão, e Roberto Aparecido Ferreira, 20, o Bebê. O crime aconteceu em 6 de maio de 2008. As vítimas foram encontradas decapitadas na mesma área de Itapecerica onde estava o corpo do deficiente mental Alves e são dois dos 12 homicídios atribuídos aos "highlanders". Pelas decapitações de Gomes e Ferreira, o soldado Vieira é réu na Justiça ao lado dos PMs Jorge Kazuo Takiguti, João Bernardo da Silva, Jonas Santos Bento, Marcos Aurélio Pereira Lima e Ronaldo dos Reis Santos. Todos os PMs também estão presos desde 2009 e negam participação nas mortes de Gomes e Ferreira.
CASO CELSO DANIEL
O juiz Antonio Augusto Galvão de França Hristov, da 1º Vara de Itapecerica, será o responsável pela condução do Júri dos quatro PMs acusados de matar o deficiente mental Alves.
O magistrado Hristov também presidirá o julgamento sobre o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Augusto Daniel. O júri que deveria ocorrer em 3 de agosto foi adiado para o dia 18 de novembro.
ELOGIOS DA ONU
No dia 1º de junho, a ONU (Organização das Nações Unidas) divulgou em Nova York um relatório de 22 páginas no qual aponta ineficiências do Brasil para combate a violência policial.
O documento "Report of the Special Rapporteur on Extrajudicial, Summary or Arbitrary Executions" é o desdobramento de uma investigação realizada em 2007 por Philip Alston, relator especial da ONU sobre execuções extrajudiciais.
De acordo com Alston, ainda hoje, apesar dos alertas feitos pela ONU num primeiro relatório divulgado ano passado, as "execuções extrajudiciais continuam em grande escala" no Brasil.
Um dos pontos positivos destacados pelo relator especial da ONU foi a prisão, no começo de 2009, dos noves PMs do 37º Batalhão acusados de integrar o grupo de extermínio Os Highlanders.
IRMÃ DENUNCIOU
Vânia Lúcia da Silva Alves, 28, irmã do deficiente mental Antonio Carlos Silva Alves, foi uma das principais responsáveis por levar os PMs "highlanders" a julgamento.
Vânia teve coragem de denunciar os policiais que são acusados de matar seu irmão à Polícia Civil, à Corregedoria da PM e à Justiça.